Quando eu descobri Kobe Bryant

Se eu tivesse que dizer algo para Kobe Bryant seria “obrigado”, com toda certeza. Talvez seja pouco, é apenas uma palavrinha cotidiana e usual. Mas que define o meu sentimento por tê-lo visto jogar e nos presentear com o seu basquete

A minha vida com o basquete começa também por Kobe Bryant. E para isso contarei rapidamente a minha história. Nasci no Rio de Janeiro, filho de pais separados, mas fui criado indo ao Maracanã desde muito novo. Ver futebol e acompanhar os jogos do Flamengo eram rotina na minha infância.

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Eu sempre gostei muito de esportes, a Olimpíadas de Atenas em 2004 era fascinante, ficar o dia inteiro vendo diferentes modalidades, torcendo para um atleta ou outro e, mais que nada àqueles que tinham nacionalidade brasileira. Até que um dia, uma mudança drástica na minha vida.

Eu e parte da família nos mudaríamos para a Argentina. Mas, fomos a uma cidade que não só era muito menor que o Rio de Janeiro, afinal era interior da província de Buenos Aires, mas uma cidade que as pessoas possuíam interesse por praticar esportes, as crianças e adolescentes eram estimuladas desde cedo a praticar algum deles. Mais do que isso, uma cidade bastante basqueteira e marcada pelo clássico Argentino x Ciclista. E foi quando eu conheci a bola laranja. Sem muita habilidade com os pés, eu fui me aventurar no basquete. E no auge dos meus 12/13 anos eu queria alguém que eu pudesse me inspirar.

Foi quando vi jogar a Kobe Bryant, liderando os Lakers. As cores da franquia sempre chamaram a minha atenção, mas quem me mantinha acordado até tarde era Kobe Bryant e seu jeito diferente dos demais. Kobe era plástico, mágico, decisivo, errava e acertava, mas, sobretudo, tinha personalidade, era autêntico. Dentro e fora de quadra. O Kobe fazia o jogo aparentar ser fácil. Parecia ser tão simples arremessar a média e longa distância mesmo com dois caras na marcação. Parecia ser tranquilo num jogo complicado ele arremessar faltando poucos segundos, matar desde a linha dos 3 pontos e dar a vitória aos Lakers. e Kobe despertou naquela criança/adolescente que estava aprendendo o que era basquete a admiração a alguém que ele nem conhecia. E eu brincava de ser Kobe Bryant nas “peladas” e rachões. Imitar o arremesso, os gestos, pôr a mão na camisa ao arremessar os lances livres.

Kobe não me ensinou apenas sobre o basquete, mas usou o basquete para me ensinar sobre a vida. Certamente sem Bryant eu não estaria aqui escrevendo sobre basquete, não seria laker, não veria NBA, muito menos estaria nas quadras do NBB para tentar informá-los sobre o basquete nacional. O nome Kobe Bryant não é apenas basquete, é uma filosofia de vida.

Kobe me mostrava que sempre era possível. Que eu podia errar agora, tomar uma decisão errada num momento conturbado, mas que eu poderia aprender com aquele erro, praticar para melhorar e não errar da próxima vez. Ser frio, até mesmo calculista e a não ter medo. Obsessão, predestinação,foco naquilo que se quer. Tudo isso eu aprendi com o Kobe.

Sofri com aquela derrota para os Celtics, e pela primeira vez vibrei numa madrugada contra o mesmo Celtics na temporada seguinte.Vibrei por um time que nem pertence a minha cultura, era distante. Infelizmente, eu não acompanhei a dupla com Shaq, não em tempo real, sou da era Kobe-Gasol. Quando eu descobri Kobe Bryant, eu passava tardes vendo seus vídeos na internet, suas semelhanças para com o Michael Jordan e, uma das coisas que eu mais queria era que ele ganhasse aquele sexto anel. Cada vitória de Kobe em quadra eram como se fossem minhas também “é o meu jogador aí, óh” orgulho. As derrotas eram sentidas igualmente, ainda mais quando muitas vezes era por uma decisão errada dele., “Kobe, deixa de ser egoísta”. É bem verdade que Kobe era egoísta, mas nos ensinou que quando você quer vencer, é melhor bater no peito e decidir por você mesmo, mais ainda se houver confiança no que se faz.

Eu não sei explicar, mas Kobe era uma espécie de herói mesmo. Eu ficava até às 3h da manhã vendo-o, no dia seguinte era sobre Kobe Bryant que eu queria falar e daqueles Lakers aos meus colegas de escola. No vídeo-game era bola no Kobe e tentar fazer o máximo de pontos que eu pudesse com o camisa 24. Eu discutia quando algum mais velho falava do Michael Jordan como melhor da história, imagina se alguém viesse falar comigo de Lebron James… não era aceitável que ninguém falasse que outro fosse melhor que o Mamba. Muito menos Lebron, era como se fosse uma ameaça. Parece estúpido, né? Talvez seja, mas sentimento irracional de um moleque que admira e toma para si a imagem de um jogador para espelhar-se.

Eu não era um bom basquetebolista, mas eu sabia fazer alguma coisa com a bola, jogar decentemente. No futebol nem isso.

Optei pelo jornalismo para aproximar-me dessas duas paixões, o futebol e o basquete. E eu sonhava em um dia poder entrevistar o Kobe Bryant. Eu me imaginava entrevistando-o em espanhol porque seria o idioma mais confortável para mim. Infelizmente, é um sonho que não vou poder cumprir.

No dia que Kobe se aposentou era um misto de sentimentos, eu pensava “meu Deus, como ele é foda, 60 pontos, vitória grande mesmo com esse time fraco dos Lakers”. E isto é outra questão, mesmo com times mais fracos de LAL, ver Kobe era um prazer, era espetacular. Em sua retirada, ficava um vazio “e agora? O que será agora sem o Kobe?”, parafraseio Moraes Moreira ao falar de Zico em música “E agora como é que eu fico nas madrugadas de NBA sem Kobe Bryant nos Staples Center?”. O sentimento é idêntico, afinal, agora como é que eu me vingo de todas as derrotas da vida se a cada cesta dos Lakers (pelas mãos de Kobe) eu me sentia um vencedor?

Ao saber de sua morte, eu não acreditei. Eu dormi à tarde, acordei e soube. Eu só queria que fosse fake news. Alguma brincadeira de mau gosto da internet. Foi um domingo triste. Se vai um ídolo mundial e sua filha de apenas 13 anos (a mesma idade que eu tinha quando descobri o basquete) e que tinha o mesmo talento do pai. Parece injusto, né? Mas, não é sobre justiça que se trata a vida. A vida é sobre ensinamentos. E Kobe nos deixou de sobra. Sinto que Kobe não morreu, quiçá pelo seu legado.

E eu prefiro me alegrar por tê-lo visto jogar, por ter aprendido com ele. Kobe, você é eterno. Nós te amamos. Obrigado por tudo.

Por: Vinícius Lima| Harry How/Getty Images

 

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