Após vice no Mundial, Ícaro Miguel mira Tóquio 2020: “estou no esporte para fazer história”

Taekwondista mineiro superou acidente doméstico quando criança para ser prata em mundial de Manchester; Ícaro quebrou jejum de 14 anos sem brasileiro na final

Faltando exatamente 369 dias paras os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, o Tabela Carioca, com o projeto “Rumo a Tokyo”, traz mais um personagem que busca estar presente no maior evento multiesportivo do planeta. Ícaro Miguel, do taekwondo, literalmente luta em busca da sonhada medalha olímpica.

Ícaro é atual vice-campeão na categoria até 87kg, em campeonato mundial disputado em Manchester (ING), em maio passado. Mas a história do taekwondista de 24 anos começou lá atrás, em Betim (MG), quando ainda era criança.

“Eu comecei no esporte por influência dos meus pais. Meus pais já tinham praticado taekwondo na juventude, e um  dia eu quis praticar uma arte marcial e pedi ao meu pai para me colocar. Ele lembrou da academia que ele já havia praticado com minha mãe e me levou na mesma academia, lá em Betim. Desde então eu tomei gosto pela arte e estou aí até hoje”, comenta Ícaro.

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Ícaro está em última semana de treinamentos antes de viajar para Lima – Foto: Reprodução/Facebook

Quem vê Ícaro Miguel entre os melhores do mundo não imagina o quanto ele teve que se adaptar para chegar aos resultados. Aos seis anos, sua mãe confundiu os frascos dos medicamentos e pingou amônia, ao invés de água boricada, no olho irritado de Ícaro, pelo cloro da piscina. O mineiro perdeu completamente a visão do olho direito, tendo córnea, retina e nervo queimados. Após tratamento, 90% da visão foi restabelecida, mas com o passar do tempo a visão voltou a ficar debilitada. Com um sonho em mente, o menino de Betim não podia parar para corrigir, com procedimento cirúrgico, a falha no órgão e teve que “reaprender” a lutar.

“Foi uma dura adaptação. Eu tive que lutar muito para poder conseguir, mas eu sempre encarei como algo natural, como se fosse uma deficiência de parte técnica. Se eu comecei a errar um pouco do reflexo ou tempo de reação, eu treinava um pouco mais de tempo de reação e se eu estava com dificuldade na defesa, eu treinava um pouco mais essa parte para facilitar eu chegar no nível que estou hoje”, destacou. Pelo ouro em Tóquio, Ícaro abriu mão de voltar a enxergar.

“A decisão entre o transplante e o sonho olímpico foi algo bem claro pra mim. Eu sempre sonhei em ser campeão olímpico e sempre batalhei para isso. Quando eu tive esse problema, claro que eu tive um susto no primeiro momento, mas hora alguma eu cheguei realmente a pensar em parar de lutar. Depois que tomei essa decisão minha visão continuou piorando, porém meus resultados continuaram subindo, então em momento algum eu fraquejei. Eu fui firme na minha decisão e continuei”, ressaltou o vice-campeão mundial.

Ícaro enfrentando o campeão olímpico Cheick Cissé (até 80kg), da Costa do Marfim – Foto: Divulgação/World Taekwondo

O Campeonato Mundial realizado em maio foi histórico para o Brasil. Foram cinco medalhas em Manchester, o que credenciou o taekwondo nacional para uma boa campanha nos Jogos Pan-Americano e Olímpico. Ícaro perdeu a final para o russo Vladislav Larin, líder do ranking mundial até 87kg. Entretanto, a prata do mineirinho de 24 anos foi histórica para o país e afirmou o seu bom momento no cenário mundial, que antes já havia batido o marfinense Cissé, campeão olímpico na Rio 2016.

“Essa prata no mundial foi muito bem-vinda. Eu trabalhei para ser campeão do mundo, fui em busca de trazer essa medalha de ouro, que é um título que o país ainda não tem. Tem o ouro no feminino, mas no masculino adulto seria inédito. Quando veio essa medalha de prata eu sabia que era uma conquista grande, porém sabia que tinha escapado ali por um pouquinho de fazer um feito histórico para o Brasil. Foi um feito histórico porque tinha muito tempo, quebrei um tabu de 14 anos sem um brasileiro na final, mas eu queria muito trazer essa medalha de ouro. Foi uma medalha que eu tinha um sonho em buscar e conquistar esse resultado em algo que eu batalhei minha vida toda é algo que me emociona. Fui medalha de prata, um feito grandioso, mas o que eu tenho a dizer é que eu quero mais.”

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Salve galeraaaaaaaaaa Quem aí conseguiu acompanhar as lutas? Não tenho muito o que dizer, apenas agradecer. Claro que sai do Brasil com a missão e o foco em ser o campeão do mundo como aprendi lá atrás "mire a lua, caso erre ficará entre as estrelas". Assim venho fazendo, mirando sempre o lugar mais alto, errei e deu nisso aí. Segundo melhor do MUNDO! Tenho alguns responsáveis que quero contar pra vocês. @clayton2bt e @reginaldo_2bt em 2014 comecei a trabalhar com esses caras, eu com uma vontade imensa e eles com a missão de pegar um cego e fazer dele o melhor do mundo, ainda não concretizamos, mas estamos perto Atrás deles tinha esse cara @marcelodenebi nosso coordenador, abraçando a causa e seguindo com o mesmo objetivo, digamos que até um pai para nos aqui. Obrigado Mussa! Conheci a uma mulher que mudou minha forma de pensar e até os "Nãos" ela tirou das minhas falas kkkk obrigado Maria Cristina, você sem dúvida tem um papel enorme nisso. Tem uma outra que me faz comer até beterraba, minha mãe virou sua fã 😂 Obrigado nutri @bruna_alvesnutri essa conquista é sua também é se prepara por que teremos bastante trabalho esse ano kkkk @ariel_roberth esse cara é zica, durmo pensando nele e acordo com ele na cabeça, nem o amor me faz sentir tantas dores 😂 Parabéns para você parceiro, apenas nos sabemos o quanto trabalharmos e você pode ter certeza que também é um dos melhores no mundo na preparação física. @t.messora esse cara é foda kkk sempre te incomodo, o melhor médico do mundo, falo com ele só pra perguntar se dipirona é doping kkkkkk valeu cara. @ronaldoaraujocoach um dia esse aqui ainda me faz explodir kkkkkk você consegue com poucas palavras colocar um fogo dentro de nós que nada tira, valeu coach e vamos mudar essa história. Agradeço também a equipe de fisioterapia da USCS que sem eles eu estaria muito quebrado até pra andar 😂 A @cbtkd.oficial ao @timebrasil por todo suporte oferecido, realmente nossa preocupações era em treinar e competir. Por último e não menos importante a Deus e minha Família, é por vocês que faço isso e é por vocês que vou continuar fazendo, pensando sempre em colocar um sorriso no rosto de cada um. #deminasparaomundo

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Quando perguntado se estava próximo do auge da sua carreira após a medalha no Mundial, Ícaro deixou clara a vontade de querer voar mais alto nos pódios.

“Estou em uma boa fase, mas não vou dizer ‘auge’ porque acredito que ainda tenho muito a conquistar. Desde o ano passado venho trazendo grandes resultados para o país. Estou, sim, em uma boa fase, mas no auge da minha carreira eu não posso afirmar porque eu quero muito essa medalha de ouro dos Jogos Pan-Americanos, algo que eu não tenho ainda, trazer uma medalha de ouro olímpica e uma em Mundial”, declarou o atleta apoiado pela Prefeitura de São Caetano do Sul.

Como a maioria dos atletas olímpicos, Ícaro também sofre para conseguir apoios e patrocínios. Em 2017 ele tentou virar atleta militar pela Marinha, mas foi reprovado no teste por conta de sua visão. Mesmo estando entre os melhores do mundo constantemente, Ícaro sobrevive no esporte com ajuda da Prefeitura de São Caetano do Sul, além da Bolsa Atleta do Governo Federal. A Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTKD) e o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) ajudam com treinamentos e viagens.

“É uma situação um pouco difícil, uma situação chata. Eu ainda tenho muitas viagens para fazer, algumas a Confederação tem arcado, como na última etapa do Grand Prix e no Campeonato Mundial. Porém, apoio fora esses eu ainda não consegui. Estou em busca, com certeza, estou trabalhando para poder conseguir esses apoios, mas infelizmente não apareceu nenhum ainda”, lamenta.

Por falar em apoio, veio de sua namorada e companheira de Seleção Brasileira um dos principais incentivos para Ícaro se adaptar a perda da visão. Raiany Fidelis (lutadora acima de 67kg) sempre o ajudava em uma espécie de “segundo treino” para melhorar sua adaptação. Com ela, Ícaro irá disputar a próxima etapa de preparação para a tão sonhada vaga olímpica: os Jogos Pan-Americanos de Lima, no Peru.

“Eu cresci no esporte escutando falar de Jogos Pan-Americanos e Jogos Olímpicos e estar em um grande evento desses, ao lado de uma pessoa que é tão importante, que está na mesma corrida que você, mesma caminhada, é algo grandioso. O ser humano sempre quer curtir os bons momentos da vida ao lado de pessoas que são importantes para ele e no meu caso é minha família, namorada e meus amigos. Ter uma pessoa com esse grau de importância do meu lado, inclusive vamos lutar juntos no mesmo dia, tendo uma possibilidade de duas medalhas de ouro juntos, é algo bem legal. Ela é uma pessoa que me ajudou muito na minha carreira, no meu desenvolvimento e na minha adaptação, ter ela ao meu lado ali vai tornar tudo mais especial”, declarou.

Ícaro Miguel com sua namorada e companheira de Seleção Brasileira, Raiany Fidélis – Foto: Arquivo Pessoal

Sobre a competição dos Jogos Pan-Americanos, especificamente, Ícaro comentou sobre a importância da pontuação dada na competição (visando a classificação olímpica pelo ranking mundial). Hoje, Ícaro Miguel aparece na 18ª posição do ranking olímpico, na categoria até 80kg, que possui alguns nomes da Pan-América entre os 20 primeiros do ranking. (40 pontos ao campeão)

“A importância dos Jogos é pela pontuação. Um evento muito grande, com uma visibilidade enorme, que pode me colocar um pouco mais perto da classificação olímpica pelo ranking. Um título me colocaria um passo à frente para os Jogos Olímpicos de Tóquio”, ressaltou.

De Minas para o Mundo é o lema do jovem mineiro que sonha com a medalha dourada olímpica. A visão comprometida seria tema para aposentar após Tóquio 2020? Não para Ícaro Miguel Martins Soares, que está no taekwondo para fazer história para o Brasil.

“Eu sempre afirmo que minha carreira e minha vida está nas mãos de Deus. Eu planejo até 2020, quero chegar e ser campeão olímpico. Passando 2020 pode ser que eu tente uma próxima olimpíada até 2024, depois até 2028. Acho que tudo vai depender de como as coisas acontecerem, mas eu não tenho pretensão de parar agora. Pelo contrário, eu sempre afirmo que estou no esporte para fazer história, para ser diferente e é para isso que estou trabalhando”, finalizou o vice-campeão mundial.

Por: Danilo Goes | Foto de destaque: Divulgação/World Taekwondo

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