Jornalista uruguaio, Martín Kesman, fala sobre a Celeste na Copa América, estilo de jogo e legado de Óscar Tabárez

“ Para mim, no dia que o Tabárez não for mais o técnico da seleção, sentiremos saudades. Porque é organizado, responsável”, afirma Martín sobre o trabalho do comandante celeste.

O jornalista uruguaio Martín Kesman conversou com o repórter Vinícius Lima (Tabela Carioca)  sobre o atual momento da seleção charrúa, e foi possível expandir o debate a outras questões como o trabalho de Óscar Tabárez desde as divisões de base, a mudança de mentalidade no jogo uruguaio, a importância de conquistar a Copa América para o país, até mesmo sobre seleção brasileira e aplicação do VAR nas competições internacionais.

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Martín Kesman é jornalista de rádio e televisão. Atualmente trabalha na emissora “Teledoce” um dos principais canais de TV aberta do Uruguai e na rádio Universal. O locutor esportivo encontra-se em Salvador, Bahia, para a cobertura e transmissão da partida entre Uruguai e Peru no próximo sábado (29) às 16h (horário de Brasília).

A seleção uruguaia se classificou em primeiro no grupo C, e apesar do empate por 2 a 2 contra a seleção do Japão, é um time que aparece como favorito a vencer a competição. Pelo trabalho mais longo e consolidado do treinador, pelo bom momento dos destaques Suárez e Cavani e postura demonstrada nos três jogos da fase de grupos do torneio.

Confira a Entrevista Completa

Atuação da seleção uruguaia nos três primeiros jogos da Copa América:

– No primeiro jogo se viu um Uruguai exuberante. Com um futebol extremamente vistoso, com muita pontaria, com grande eficiência de gol. Time atento às marcações e jogadores com atuações à altura a qual se espera deles. No segundo jogo, acredito que a seleção do Japão deixou o Uruguai desconfortável em alguns momentos, é uma seleção muito rápida. Um time que se apresentou de um modo bastante ofensivo em relação ao jogo que fizeram contra o Chile. Ainda assim, o Uruguai mesmo quando teve o placar adverso, teve rebeldia e pôde empatar em seguida..E contra a seleção do Chile todos esperávamos ver um jogo extremamente parelho. Chile é o último bicampeão da Copa América e possui um elenco respeitável, mesmo que eles não tenham ido à última Copa do Mundo. Pessoalmente, fiquei muito satisfeito com o que vi do Uruguai que conseguiu ficar na primeira colocação do grupo C e pôde fazer, inclusive, modificações, para não ficar pendente de um único time. E injetar jovens no campo de jogo, Betancourt, Alberde, Torreira, Nández, Lodeiro, De Arrascaeta. Estamos falando de um meio-campo muito jovem que soube superar os desafios propostos.

Favoritismo: Uruguai foi dado como principal candidato ao título  no início da competição, após o empate com o Japão, já não se falou tanto em tal favoritismo.

– Eu acredito que nenhum time ganha o rótulo de favorito por um jogo, nem o perde por outro. Creio que antes do início da competição os favoritos eram o Uruguai por ser o maior campeão da Copa América, Argentina, logicamente, por ter o melhor jogador do mundo e estão em um processo com grandes talentos, há de se ter essa consideração, Brasil o organizador do torneio, mesmo com a ausência do Neymar é o Brasil e demonstrou que está para coisas importantes, ficando na primeira colocação do grupo. Então, creio que estes são os três principais favoritos. Depois, Colômbia foi o time que teve maior efetividade, já que foi a única seleção que venceu os três jogos. E o Chile, não podemos deixá-los fora já que o último campeão deste torneio. Mas sim, Uruguai continua sendo o favorito, principalmente por ser a seleção que mais títulos possui nesta competição.

Qual é o nível de importância da Copa América para o Uruguai? No Brasil existe uma cultura de dar importância apenas à Copa do Mundo.

– Eu tenho um enorme respeito a este certame. Uruguai foi o primeiro time campeão e foi o que mais vezes a conquistou, 15 copas. Eu creio que é o torneio mais antigo para as seleções sul-americanas e, obviamente, a considero extremamente importante. Se o Brasil não a considera assim, bom, é uma responsabilidade dos brasileiros. Nós como uruguaios, sempre que joga o Uruguai, seja na Copa América, Eliminatórias e/ou Copa do Mundo, vibramos permanentemente e quando os resultados são obtidos, festejamos. E quando os resultados não são bons, pode vir uma crítica, mas, sobretudo se dá apoio. Seja em resultados de um time esportivo ou, individualmente a alguns dos futebolistas. Isto porque no processo do Óscar Tabárez se gerou uma adesão popular que, logicamente, respeita e admira o desenvolvimento dos trabalhos da seleção uruguaia. Não há questionamentos para com a entrega e o profissionalismo. De fato, os jogadores chegam de cada uma de sua respectivas ligas para encarar as competições, independentemente de qualquer que sejam-as. Os jogadores simplesmente chegam de avião, já descem para o CT da seleção uruguaia e se colocam às ordens do treinador. Isto se chama comprometimento. O Tabárez colocou isto de uma forma tão clara que os jogadores o respeitam e aderem à causa.

O trabalho de Oscar Tabárez:

– Há pessoas que estão de acordo com ele, e há pessoas que não estão. Mas, Tabárez tem o respeito de todos. Eu estive nas coletivas de imprensa após cada partida e a imprensa internacional o respeita, os seus colegas o respeitam, os futebolistas de cada seleção idem. E no Uruguai a mesma coisa, as pessoas gostam do Tabárez. Até quiseram fazer-lhe uma homenagem. Colocar uma estátua na porta da intendência e no fim das contas, o projeto não foi concluído. Mas, discutir o Tabárez, homem que colocou ordem ao futebol da nossa seleção, que impôs um estilo. Não de futebol, mas de responsabilidade, adesão ao que representa a camisa celeste, defender de forma responsável a história da seleção uruguaia. Questioná-lo seria ilógico. Para mim, no dia que o Tabárez não for mais o técnico da seleção, sentiremos saudades. Porque é organizado, responsável. E é o técnico que entrou na história por ser o “coach” com mais jogos dirigindo uma seleção nacional. E isso é algo a se respeitar.

Estilo de jogo da seleção uruguaia na Copa América:

– Taticamente, a cada jogo vai marcando as intenções do que quer o treinador. Pessoalmente, observando esta Copa américa e o primeiro jogo contra a seleção do Equador, creio que Uruguai apresentou um futebol que deve ter sido um dos seus melhores dos últimos anos, mais que nada o primeiro tempo. Por outro lado, o Uruguai esteve em desvantagem, primeiramente por causa da lesão do Laxalt, tendo que queimar uma substituição por questões físicas. Mas, acredito que nesta Copa América não houve erros importantes desde o ponto de vista tático ou técnico para jogar a culpa no treinador, ao contrário, o Uruguai, depois de muitas Copas Américas finalmente termina em primeiro no grupo.

Pessoalmente, têm preferência por estilo de jogo? Gosta da forma que joga a seleção celeste?

– Eu sou resultadista. Eu prefiro jogar mal e vencer do que jogar bem e perder. Porque os campeões e/ou os campeonatos ganham aqueles que somam mais pontos e fazem mais gols. Então, começando por aí. O Uruguai possui se não o ataque mais cotado, um dos dois mais cotados junto com a Argentina. Por outro lado, uma defesa sólida com Godín, que foi um fenômeno no Atlético de Madri e agora jogará na Inter de Milão, o Giménez que tem 24 anos, mas já tem duas Copas do Mundo no currículo, tem presente bárbaro e um futuro no qual pode vir a ser substituto do Godín como capitão.

Renovação da seleção e possíveis ciclos que se terminam. Cavani e Suárez, as duas principais estrelas do time já têm mais de 30 anos:

– Eu não creio que os ciclos de Cavani e Suárez estejam chegando ao fim. Os dois têm 32 anos, creio que é uma idade em vigência. O Paolo Guerrero tem 36 anos e continua atuando pela seleção peruana, o mesmo ocorre com o Dani Alves também tem 36. Eu creio que ao contrário, a renovação se dá dentro de um plantel em que há jogadores com experiências, que possam dar um ponto de vista do compromisso que é defender a seleção.

Como é realizado o trabalho nas divisões de base e formação dos jogadores? Mudou a forma de se pensar o futebol no Uruguai? 

– O trabalho é feito desde as divisões de base. Uruguai trabalha as propostas do Tabárez desde as seleções sub-15, sub-20 e profissional. Segue uma mesma metodologia de trabalho. Ou seja, há um modelo de direção da seleção uruguaia. Por isso eu frisava a importância do Oscar Washington Tabárez. Além de diretor técnico, ele é o responsável pela organização e filosofia das seleções uruguaias. É fato que o Uruguai sempre teve o reconhecimento da imprensa mundial do que é a “garra charrúa”. Mas, hoje em dia os jogos não se vencem apenas com garra. Não se ganham mais jogos com aquele discurso de considerar um jogo ao qual “se não passa a bola, não passa o jogador” não. Hoje em dia há que jogar futebol. O Uruguai no ano passado terminou a copa do Mundo em primeiro no grupo, venceu a seleção portuguesa do Cristiano Ronaldo. Jogou contra a França e fez frente aos franceses que foram campeões do mundo. Na Copa anterior, venceu a Itália, venceu a Inglaterra. Em 2010 foi o melhor colocado  na classificação geral dentre as equipes sul-americanas, o mesmo ocorreu no Mundial da Rússia. É um progresso da nossa seleção. Os uruguaios hoje deixam essa garra um pouco de lado. Há que ter garra e há que ter futebol. E se você tem tal elenco e não joga futebol, evidentemente, os objetivos não são alcançados.

Seleção Brasileira

– Acredito que o Brasil vem num processo de mudanças. Acredito que a ausência do Neymar nesta Copa América fez que o povo acreditasse que não há potencial nesta seleção para ser campeã.Eu, pessoalmente, mais do que o Neymar, devemos ver a seleção em seu sentido coletivo. Lembro-me do Brasil com duplas fantásticas como Ronaldo e Rivaldo, Bebeto e Romário. E hoje fala-se apenas em Neymar. Eu creio que em seleções mais que o aspecto individual, há que ver o coletivo. E no dia que o Brasil começar a pensar dessa forma, haverá uma fortaleza que hoje em dia eu sinto que não a possui. Digo isto no que diz respeito a adesão do torcedor para com a seleção.

VAR

– Eu gosto da justiça no esporte, mas gosto da agilidade também. Acredito que algumas partidas tornaram-se muito lentas. Já não há mais 90 minutos de jogo, há 110. E pessoalmente, serei mais respeitoso em relação ao VAR como sistema de implementação de justiça no dia que estiver instalado em todas as ligas. Não pode ser que no futebol do meu país não tenhamos o VAR quando sim há polêmicas, e num torneio de seleções e veja que os estilo da arbitragem, o jeito de analisar uma jogada são de 10 pessoas, enquanto isso a responsabilidade seja apenas para três indivíduos. Na copa do Mundo havia uma agilidade diferente no que diz respeito a implementação do VAR. Na Copa América eu vejo aplicado de uma forma muito lento. Reitero, sou torcedor da justiça, mas que seja para todos, e não apenas em alguns campeonatos.

Foto de destaque: Twitter Martin Kesman

Por: Vinicius Lima

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