Blog do Vinni: Sem discurso piedoso, é preciso ordem para obter progresso

O que a seleção precisa fazer para progredir

Não, eu não gosto desse discurso de “nossa, elas nem tem tanto investimento assim, vamos apoiar”, nem o “perdeu porque não tem investimento, perdeu porque não são valorizadas”.

As meninas não perderam por falta de investimento, perderam por falta de preparo.

Falta investimento? Evidente. Mas não é esse o motivo. Mais do que isso, são diversas coisas que faltam e, provavelmente com maior investimento, teríamos melhores condições. O futebol feminino sofre no Brasil assim como quase todos os outros esportes que não são o futebol masculino. Infelizmente não temos uma cultura que valorize os esportes, não temos mentalidade olímpica. Seja por meio de instituições, entidades, governamentais ou não. Tampouco a nossa sociedade. Ora, fora o período das Olimpíadas, quantas vezes um outro esporte que não seja o futebol vira conversa de bar, conversa com colegas do trabalho ou qualquer outro ambiente informal? É raro. A verdade é que fomos sede das Olimpíadas de 2016 e pouco aprendemos, pouco legado foi deixado.

Não sei até que ponto a culpa é nossa. Seja como cidadão, como sociedade, ou até como imprensa.

Em 2019 a Copa do Mundo de futebol feminino sendo transmitida, veiculada nos grandes meios de comunicação fez despertar em muitos um outro olhar para o esporte, vermos tudo o que ele precisa para ser melhorado. Afinal, somos o país do futebol. E dominamos quase todas as esferas derivadas do esporte. No campo, na quadra, na areia e afins. Isso não reflete quando é praticado por mulheres, mesmo que tenhamos a maior jogadora de todos os tempos. A verdade é que tivemos uma geração de mulheres muito boa individualmente na década passada. Geração que já está envelhecida. A verdade é que meninas vestindo a amarelinha já nos encantou mais. Basta lembrar as Olimpíadas de 2004 e 2008, até mesmo outras Copas do Mundo, no auge de Marta, porém, sempre “bateu na trave”. E nos lamentamos pelo mesmo. Não conseguimos entender as decisões da CBF e suas derivações. É difícil compreender a saída do René Simões da forma que foi, a saída da Emily Lima e muito mais difícil engolir Vadão, com tais resultados, tais convocações e forma de jogar do nosso selecionado feminino.

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Falamos da fraca liga nacional, falamos do quão difícil é tornar-se profissional, da desvalorização do esporte e do mal planejamento vendo a seleção nacional atuar. Mas, a verdade é que a grande maioria das meninas que vestem a canarinho são pontos fora da curva no cenário deste esporte. E facilita compreender a fala de Ludmila quando se diz privilegiada, mesmo tendo uma história de vida com muitas dificuldades. Pois, a meia do Brasil joga numa das grandes ligas europeias (Espanha) onde o futebol feminino é muito mais bem tratado e valorizado do que em nosso território nacional. Chegar ao mais alto nível do futebol feminino, vestir a camisa da seleção brasileira e do Atlético de Madrid é um privilégio para poucas. Além do esforço, da técnica e da perseverança admirável da jogadora, num contexto dificultoso, ela chegou lá. Mas além do talento e da técnica, sabemos o quão difícil é chegar e que não depende unicamente disso. Sim, a luta por um futebol feminino tratado com decência não pode morrer junto de mais uma eliminação de uma Copa do Mundo.

A realidade é que a maioria das meninas que sonham em profissionalizar-se jogam em ligas amadoras e semi-amadoras. As meninas que atuam no Brasil sonham em jogar fora do país não pelo glamour ou por ganhar mais dinheiro, mas por ter uma vida digna praticando o que ama. A realidade de muitas meninas que atuam no Brasil é de realizar outra atividade complementar para ter uma melhor renda financeira. Temos uma liga nacional varzeana, um técnico ultrapassado, desatualizado, não temos categorias de base tratadas corretamente, temos um planejamento muito mal feito no que diz respeito ao futebol feminino. Nos clubes a categoria é menosprezada. A mídia pouco divulga o entorno do esporte a nível nacional. Quantos jogos o torcedor brasileiro comum pôde assistir do Brasileirão A1? Como a grande Marta alertou, preocupação é para o futuro. Não há perspectivas de melhora. Em breve, não teremos uma Marta, uma Formiga ou uma Cristiane. E o que sobra? O que está por vir? Não há renovação que seja realizada pelos que compõem CBF, comissão técnica da seleção e demais. Poucos talentos individuais a curto e médio prazo. O que vamos esperar? Surgir novamente uma nova Marta para criarmos esperanças? Ou vamos finalmente investir para que tenhamos uma liga saudável, entretida, divulgada, categorias de base bem realizadas? A palavra chave não é investimento. É planejamento. Planejar, reformular, e fazer. E aí, os resultados em campo finalmente irão aparecer.

Eu não creio em igualdade para com o futebol masculino. Esporte, assim como o mercado, gera receita a medida que há demanda. Se há pouco retorno, haverá pouco investimento de patrocinadores e consequentemente menor lucro e menores salários. Mas, não falo disso. O futebol feminino carece do mínimo. Reivindicamos apenas o necessário. E remarco que essa guerra de gêneros que foi plantada em muitos momentos durante a Copa só prejudica o desenvolvimento do esporte e afasta o interesse do cidadão comum. É tola. E que cada olhar que redescobriu o futebol feminino nesta Copa do Mundo, não morra junto com ela. Façamos algo, a priori internamente, para alcançarmos voos mais altos no futuro. Lamentemos menos, façamos mais.

Foto de destaque: CBF

Por: Vinicius Lima

 

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One thought on “Blog do Vinni: Sem discurso piedoso, é preciso ordem para obter progresso

  1. Excelente texto. Expressou de forma sintética tudo que se poderia dizer a respeito da questão do futebol feminino — que como pode se ver, é uma questão que na verdade atinge todos os esportes com exceção do futebol masculino. Somos carentes de cultura esportiva. E até mesmo o futebol masculino começou a perder relevância conforme os melhores passaram a jogar fora e a Seleção deixou de ganhar tanto quanto antes.

    Excelente reflexão que escancara, por mais doloroso que seja, o que o Brasil é e o que precisa ser feito — para além da lacração das redes.

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